A História dos Samurais – Parte 1

As espadas dos Samurais

No outono de 1274, Takezaki Suenaga cavalgava em alta velocidade para a Baía de Hakata, situada na costa noroeste da Ilha de Kyushu. Corriam boatos de que uma grande armada invasora vinda da China e da Coreia se dirigia para a costa, com a intenção de obrigar os japoneses a submeter-se ao governo de Kublai Khan. Desde 1269, por meio de uma série de ameaças veladas, o imperador mongol do Norte da China havia tentado instituir no Japão o tipo de hegemonia entre senhor e vassalos que havia imposto na Coreia e em outras nações adjacentes.

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Sua primeira mensagem para o imperador japonês foi um insulto, ao tachá-lo de «governante de um país pequeno». Ainda que boa parte da cultura e da tecnologia japonesas procedesse da China, o Japão havia se negado durante séculos a submeter-se à relação tributária que lhe exigia a China imperial. Após seis anos do que ele considerou incitações sutis, era evidente que Kublai havia decidido que o Japão demandava uma persuasão mais firme. No início de novembro de 1274, chegaram à província de Suenaga, situada ao sul de Kyushu, notícias de que duas pequenas ilhas japonesas ao noroeste de Kyushu, Tsushima e Iki, haviam sucumbido diante da força invasora combinada de chineses e mongóis. DSC09795

Os japoneses foram largamente superados em número. Conforme os relatórios tradicionais, que quando falam do  número de efetivos militares ou de vítimas de uma guerra são sempre um tanto duvidosos, o exército sino-mongol invasor, que havia zarpado do sul da Coreia em quase 800 barcos construídos e tripulados por coreanos, tinha 15.000 homens. Os defensores de Tsushima e Iki eram somente algumas centenas. Lutando heroicamente até o último homem, os guerreiros japoneses se horrorizaram ao ver os invasores matarem indiscriminadamente mulheres, crianças e outros não combatentes. Mas para os mongóis, aterrorizar a população civil não era nada além de outra arma bélica. Quando souberam que estes invasores bárbaros se dirigiam para a Baía de Hakata, em Kyushu, Suenaga e outros guerreiros se prepararam para iniciar a batalha. Os mais aristocráticos pintaram os dentes de preto, colocaram pó de arroz e perfume e prenderam o cabelo em um coque elaborado. Os guerreiros japoneses que perdiam uma batalha costumavam ser decapitados, e este cuidado com a aparência garantia que, mesmo morto, o guerreiro conservasse sua dignidade. Depois, os guerreiros reuniram suas armas: um arco, uma adaga e uma ou duas espadas.

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Também acrescentaram ao equipamento uma pele de cervo, que usavam para sentar e conservar a posição durante a prática do tiro com arco. Na guerra, a pele servia de assento para o guerreiro que estava a ponto de ser executado. Esses eram os preparativos tradicionais dos samurais, como eram conhecidos os guerreiros profissionais que podiam de- monstrar que descendiam da aristocracia dos clãs . mais antigos. Este nome, que significa «os que servem», havia sido aplicado antes aos criados pessoais e os samurais ainda exerciam a função de fiéis serventes.

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O guerreiro devia lealdade primeiro ao seu senhor imediato, e tinha a obrigação de morrer por ele se fosse necessáho; devia até suicidar-se para evitar que o capturassem ou para expiar um ato indigno. Em troca do serviço leal aos latifundiários que os contratavam para seus exércitos particulares, os guerreiros recebiam terras ou então o direito de ser administradores de propriedades pequenas. Os samurais seguiam um código de comportamento, que mais tarde seria chama- do de bushido ou «o caminho do guerreiro», que exigia resistência fisica, devoção absoluta ao de  ver e coragem em qualquer circunstância. Certamente, este código representava um ideal. Entre os samurais também acontecia a traição e a covardia, e alguns sentiam apreensão diante da ideia de matar como forma de vida. Não era incomum que um guerreiro de elite se retirasse em um mosteiro para orar pelas almas de quem havia matado. Assim como outros, certamente Suenaga havia se formado com um mestre de tiro com arco e esgrima, e suportou penalidades como jejuns prolongados e caminhadas pela neve com os pés descalços. Talvez também-tenha sido devoto do zen, um tipo de budismo importado da China. Os governantes militares do Japão haviam aceitado o zen em grande parte pela ênfase que este punha sobre a disciplina e sobre a mente como centro de tudo.EdoArmor-3 Antes de partir para a Baía de Hakata, sem dúvida Suenaga havia rezado na capela xintoísta ou no templo budista local, implorando às diversas divindades que lhe permitissem se destacar na batalha iminente. N o dia 18 de novembro, os mongóis ancoraram na Baía de Hakata.Quando, no dia seguinte, começaram a desembarcar suas tropas, encontraram alguns milhares de guerreiros japoneses entre os quais estavam Suenaga e cinco seguidores seus. Os defensores atacaram os invasores em diversos pontos da baía. Em sua posição inicial, o pequeno grupo de Suenaga viu-se apequenado por outros bandos de japoneses, de até cem efetivos, que haviam aportado outros guerreiros de mais alta categoria com grandes propriedades. Suenaga decidiu ir para a cidade portuária de Hakata, que também estava sendo atacada, com a esperança de alcançar maior glória nela. Isto era típico dos guerreiros samurais, que gostavam de tomar a iniciativa na batalha para ganhar recompensas especiais. Mais uma vez, quando chegou à cidade, já haviam muitos guerreiros japoneses posicionados e ele e seus seguidores foram em busca de uma terceira posição. Ali, ao fim, uniram suas forças às de um poderoso guerreiro de sua província que estava repelindo com força os invasores. Os samurais lançaram seu ataque seguindo o modo ancestral: foi disparada uma flecha com uma ponta zunidora e sibilante para marcar o começo da batalha. Então, um por um, os samurais cavalgaram em busca de inimigos individuais que tivessem uma categoria similar à sua, para estabelecer combates de homem a homem. Tradicionalmen- te, um guerreiro encontrava outro de sua categoria proclamando em voz alta a linhagem de sua família e seus títulos, concluindo o anúncio, talvez, com um toque de falsa modéstia, o que dava importância à sua habilidade. Quando encontrava um adversário digno, costumava usar a espada para tentar deixá-lo sem sentido (dar um golpe mortal em cima de um cavalo era dificil) e desmontá-lo. Então desmontava, matava-o com a adaga que levava no pulso e, por último, decapitava-o. Após a batalha, as cabeças eram contadas e depois levadas para o senhor feudal como troféus e provas do massacre. No entanto, Suenaga e os outros samurais descobri- ram consternados que não era assim que os mongóis lutavam. O inimigo havia utilizado táticas grupais aperfeiçoadas durante os cinquenta anos anteriores nas amplas conquistas mongóis por toda a Ásia. Grupos de arqueiros e lanceiros tremendamente disciplinados executavam manobras precisas seguindo as ordens ao bater dos tambores. O primeiro samurai que se adiantou para desafiar o inimigo em combate parecido teve de se esquivar de uma nu- vem de flechas envenenadas. Os samurais estavamno auge de sua capacidade de tiro. Os arcos mongóis, curtos e poderosos, eram eficazes a uma distância de até 240 metros, duplicando o alcance dos arcos japoneses. Além disso, pela primeira vez os japoneses enfrentavam armas de fogo, que eram projéteis lançados com catapulta e que explodiam com um estrépito ensurdecedor, assustando os cavalos dos samurais e colocando fogo em cavaleiros e montarias por igual.7

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Contra essas táticas desconhecidas e algumas armas tão terríveis, Suenaga e os seus lutaram com a coragem sem comparação dos orgulhosos samurais. Suenaga, segurando sua espada com ambas as mãos, dava talhos de um lado e do outro contra os inimigos que lhe rodeavam por toda parte. Então, Suenaga e três de seus homens perderam os cavalos e avançaram a pé com dificuldade, gravemente feridos. Sem dúvida, seu pequeno bando teria sido aniquilado a não ser pelo repentino aparecimento de mais de cem compatriotas seus. Quando caiu a noite, os feridos defensores japoneses se retiraram vários quilômetros terra adentro e se refugiaram atrás de algumas muralhas defensivas.

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Durante a noite, uma forte tempestade começou a se formar. Enquanto os guerreiros sobreviventes estavam descansando, ensopados e exaustos, esperando os reforços da ilha vizinha de Honshu, o inimigo também se retirou. Os pilotos dos barcos coreanos, temendo que a tempestade em formação lançasse suas embarcações contra as rochas da baía e deixasse a força ofensiva isolada na praia, convenceram os generais mongóis a embarcar suas tropas. Ao amanhecer,já haviam zarpado da baía, entrando em cheio no meio de um tufão. Quase um terço da frota mongol foi perdido e, conforme um relatório sobre os sobreviventes, morreram cerca de 13.500 soldados e marinheiros. Após o fracasso da invasão inimiga, Suenaga e outros guerreiros esperaram  ansiosos a recompensa pelo serviço louvável que, normalmente, chegava após uma batalha. Suenaga se sentia especialmente digno dela. Ao contrario de alguns samurais que se recusavam a lutar e mudar de lugar para enfrentar os inimigos, ele havia atacado corajosamente o adversário e foi ferido. 4

Apesar disso, ao contrário de outras batalhas anteriores contra oponentes locais, os governantes de Kamakura, a capital militar da Ilha de Honshu, não haviam obtido terras ou outra conquista para distribuir entre os soldados. Para Suenaga, essa falta de recompensa foi especialmente perturbadora, porque o oficial responsável em Kyushu nem mesmo havia informado o bakuJu, o governo militar, sobre sua coragem. Suenaga considerava isto uma perda de dignidade. Desesperado, Suenaga decidiu viajar para Kamakura para expor seu caso pessoalmente. Seria uma árdua viagem para o norte, desde o Sul de Kyushu até a costa centro-oriental de Honshu.

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Suenaga não tinha dinheiro para a viagem. Mas estava decidido a obter o reconhecimento e a recompensa que merecia, de modo que vendeu alguns de seus cavalos e cadeiras de montar para custear a viagem. Saiu de sua casa em junho de 1275, e quase dois meses depois chegou a Kamakura. A cidade, uma antiga aldeia de pesca, tinha agora 50.000 habitantes. Estava localizada em um ponto estratégico: rodeada em três de seus lados por montanhas e no quarto por uma baía. Suenaga atravessou um dos sete portos de montanha, em cada um dos quais havia um posto de vigilância. Ali viu casas construídas nos patamares das colinas ao redor. Tal qual as descreveu outro visitante do século XIlI, as casas pareciam estar «sobrepostas umas às outras [ … ]. Pareciam objetos que haviam sido colocados de qualquer jeito em um saco}}.

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O samurai desceu até o coração da cidade, onde as casas dos guerreiros margeavam uma vasta avenida que levava até o mar. O tamanho de cada residência era estabelecido pelo bakufu, em função da posição social e dos recursos da família. O bakufu também tentava regular a vida da população de outras maneiras. Duas décadas antes, em 1252, o governo havia decidido que na cidade havia muito saquê, e confiscou exatamente 37.274 jarras. Cada casa ou família teve direito a uma jarra e o resto foi destruído. As normas que ordenavam que as ruas fossem mantidas limpas foram menos eficazes. Suenaga viu as esquinas das ruas repletas de lixo e até mesmo um ou outro cavalo morto. A maior parte dos habitantes da cidade era pobre, e os numerosos templos budistas zen tornavam-se algumas vezes refúgios para ajudar os doentes e os ÓrIaos. Suenaga teve muitas oportunidades de observar Kamakura e seu ambiente. Durante quase dois meses não teve sucesso para obter uma audiência com um oficial do bakufu. Por-último, em outubro, Adachi Yasumori, chefe do escritório de recompensas do governo militar, aceitou recebê-lo. Suenaga lhe disse: «Não apelo unicamente por querer uma recompensa. Se dizem que minha afirmação de ter combatido na vanguarda é falsa, peço que me decapitem imediatamente. Tenho apenas um desejo: que o xógum saiba de meus méritos.» A persistência de Suenaga deu seus frutos.

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Foi presenteado com um cavalo e nomeado administrador de um Estado em sua ilha natal de Kyushu. Ainda que muitos outros guerreiros tivessem apelado diretamente ao bakufu, Suenaga foi um dos únicos 120 que receberam uma recompensa. Ele nunca se esqueceu disso. Um dos argumentos que Suenaga sustentou a seu favor era o de que uma recompensa «serviria como poderoso estímulo em caso de acontecer outra guerra)). De fato, outra invasão já estava sendo planejada. Enquanto os inimigos, ele havia atacado corajosamente o adversário e foi ferido. Apesar disso, ao contrário de outras batalhas anteriores contra oponentes locais, os governantes de Kamakura, a capital militar da Ilha de Honshu, não haviam obtido terras ou outra conquista para distribuir entre os soldados. Para Suenaga, essa falta de recompensa foi especialmente perturbadora, porque o oficial responsável em Kyushu nem mesmo havia informado o bakuJu, o governo militar, sobre sua coragem.

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Suenaga considerava isto uma perda de dignidade. Desesperado, Suenaga decidiu viajar para Kamakura para expor seu caso pessoalmente. Seria uma árdua viagem para o norte, desde o Sul de Kyushu até a costa centro-oriental de Honshu. Suenaga não tinha dinheiro para a viagem. Mas estava decidido a obter o reconhecimento e a recompensa que merecia, de modo que vendeu alguns de seus cavalos e cadeiras de montar para custear a viagem. Saiu de sua casa em junho de 1275, e quase dois meses depois chegou a Kamakura. A cidade, uma antiga aldeia de pesca, tinha agora 50.000 habitantes. Estava localizada em um ponto estratégico: rodeada em três de seus lados por montanhas e no quarto por uma baía. Suenaga atravessou um dos sete portos de montanha, em cada um dos quais havia um posto de vigilância. Ali viu casas construídas nos patamares das colinas ao redor. Tal qual as descreveu outro visitante do século XIlI, as casas pareciam estar «sobrepostas umas às outras [ … ]. Pareciam objetos que haviam sido colocados de qualquer jeito em um saco.

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O samurai desceu até o coração da cidade, onde as casas dos guerreiros margeavam uma vasta avenida que levava até o mar. O tamanho de cada residência era estabelecido pelo bakufu, em função da posição social e dos recursos da família. O bakufu também tentava regular a vida da população de outras maneiras. Duas décadas antes, em 1252, o governo havia decidido que na cidade havia muito saquê, e confiscou exatamente 37.274 jarras. Cada casa ou família teve direito a uma jarra e o resto foi destruído. As normas que ordenavam que as ruas fossem mantidas limpas foram menos eficazes. Suenaga viu as esquinas das ruas repletas de lixo e até mesmo um ou outro cavalo morto. A maior parte dos habitantes da cidade era pobre, e os numerosos templos budistas zen tornavam-se algumas vezes refúgios para ajudar os doentes e os ófãos.

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Suenaga teve muitas oportunidades de observar Kamakura e seu ambiente. Durante quase dois meses não teve sucesso para obter uma audiência com um oficial do bakuJu. Por-último, em outubro, Adachi Yasumori, chefe do escritório de recompensas do governo militar, aceitou recebê-lo. Suenaga lhe disse: «Não apelo unicamente por querer uma recompensa. Se dizem que minha afirmação de ter combatido na vanguarda é falsa, peço que me decapitem imediatamente. Tenho apenas um desejo: que o xógum saiba de meus méritos.» A persistência de Suenagadeu seus frutos. Foi presenteado com um cavalo e nomeado administrador de um Estado em sua ilha natal de Kyushu. Ainda que muitos outros guerreiros tivessem apelado diretamente ao bakuJu, Suenaga foi um dos únicos 120 que receberam uma recompensa.

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Ele nunca se esqueceu disso. Um dos argumentos que Suenaga sustentou a seu favor era o de que uma recompensa «serviria como poderoso estímulo em caso de acontecer outra guerra». De fato, outra invasão já estava sendo planejada. Enquanto Suenaga estava em Kamakura expondo seu caso, K.ublai Khan convocou o imperador japonês para sua nova corte, onde hoje em dia é Beijing, para que lhe prestasse homenagem. O bakufu respondeu decapitando os seis homens da delegação chinesa e ordenando que fossem feitos preparativos para defender-se diante de outro ataque. Os chefes de Kyushu começaram a recensear todos os guerreiros e o equipamento bélico disponível para sua utilização imediata que havia em cada família. Um velho guerreiro chamado Saiko enviou um inventário de seus arrozais e uma lista dos membros de sua casa: «Saiko, de 85 anos. Não pode caminhar. Nagahide, seu filho, de 65 anos. Tem arco, flechas e armas.

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Tsurehide, de 38 anos. Tem arcos e flechas, armas, corselet, cavalo. Matsujiro, de 19 anos. Tem arcos e flechas, corselete, cavalo e um seguidor. Saiko concluía a lista escrevendo: «Estão às ordens de Vossa Senhoria e lhe servirão fielmente.» Ao longo da costa da Baía de Hakata, começou a tomar forma uma muralha defensiva de pedra, de cerca de 1,5 e 4,5 metros de altura, que cobria uma distância de cerca de 40 quilômetros. A responsabilidade pela construção desse muro, que demorou cinco anos para ficar pronto, ficou com os latifundiário’s de Kyushu. Para distribuir por igual os custos da construção, foi inventada uma fórmula conforme a qual os latifundiários deviam construir uma parte do muro em função da extensão de suas terras. Em 1280, Kublai Khan havia conquistado todo o Sul da China e os japoneses souberam que, na primavera seguinte, ele queria centralizar sua atenção no Japão. Havia criado até mesmo um novo departamento governamental, conhecido como o Ministério para a Conquista do Japão. Na capital imperial japonesa, Quioto, o imperador ordenou que todos os habitantes do país fizessem orações. Nos mosteiros, os serviços religiosos eram celebrados de dia e de noite. O povo se aglomerava nas capelas de Hachiman, o deus da guerra.

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O imperador também procurou a intervenção dos espíritos depositando cartas escritas de próprio punho nas tumbas de seus antepassados. Conforme as fontes tradicionais, um exército de 40.000 coreanos, chineses e mongóis zarpou da Coreia a bordo de cerca de 900 barcos. Uma força maior, de 100.000 soldados, alguns deles mongóis, mas sobretudo habitantes do Sul da China, um território recém-conquistado, abandonaram o Sul da China a bordo de 3.500 barcos. No dia 23 de junho de 1281, após entrar na Baía de Hakata, a frota da Coreia começou a desembarcar seus homens. Os invasores depararam-se com uma feroz oposição por parte dos samurais, posicionados atrás do muro recém-construído, e Takezaki Suenaga estava na primeira linha de combate. Os samurais, que não se contentavam em ser meros defensores, organizaram sua contraofensiva amparados na escuridão noturna. A bordo de botes pequenos e rápidos, construídos com essa intenção, atacaram os grandes transportes dos inimigos ancorados na baía. Subindo pelos lados das embarcações, pularam para dentro delas e desafiaram os ocupantes a combates um contra um. Antes de ir embora, atearam fogo nos barcos.

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Como lhes faltava um bote, um grupo de samurais foi até uma embarcação mongol nadando, abordou-a, decapitou a tripulação e regressou à costa novamente a nado. Superados em número, mas não em valor, os guerreiros japoneses sustentaram a luta durante mais de cinquenta dias. Mostraram-se especialmente eficazes contra os coreanos e chineses recrutados à força, que não se     animavam a lutar por seus senhores feudais mongóis. Foi então que o exército principal dos invasores, que havia demorado muito, chegou da China aproximando-se da costa em um ponto mais a oeste. Apesar disso, e por incrível que pareça, na noite de 15 de agosto, justamente quando parecia que os defensores japoneses seriam derrotados, chegaram os ventos tempestuosos como naquela vez em 1274.

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Durante duas noites, as tempestades com força de tufão bateram na costa, arrancando árvores pela raiz e levantando enormes ondas que engoliram todas as embarcações inimigas, menos algumas centenas delas. As perdas dos mongóis foram catastróficas. A maioria se afogou, mas milhares de outros guerreiros foram lançados à costa pela tempestade e ali os samurais os perseguiram e decapitaram. N aquela época do ano, os tufões eram frequentes, mas a maioria dos japo~ neses atribuiu a estes um milagre. Insistiram que os deuses haviam intervindo e, a partir daquele momento, os tufões de 1274 e 1281 foram denominados kamikaze, o «vento divino».

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Após a vitória, os guerreiros reivindicaram uma considerável recompensa do governo. Os sacerdotes que haviam rezado pedindo a vitória afirmavam ser os responsáveis pelos ventos divinos, e se uniram a milhares de samurais na hora de buscar uma recompensa tangível por sua façanha. O bakufu sentiu-se obrigado a dar preferência aos monges; afinal, estes tinham muita influência na corte e em todo o Japão. No entanto, tal como ocorreu na campanha anterior contra os mongóis, os governantes militares tinham pouco a dar. Isto supôs um duro revés para os combatentes.

Haviam repelido os invasores com seus próprios meios, e mesmo quando a maioria se dava conta de que suas possibilidades de obter uma recompensa eram poucas, estiveram prontos para o combate durante mais quase vinte anos, até 1300. Mas Kamakura estava tão inundada de peticionários que o bakufu decretou que não ia conceder mais recompensas pelas duas campanhas contra os mongóis. Dessa vez, o relatório sobre a coragem de Takezaki Suenaga havia chegado ao bakufu sem que ele tivesse que se deslocar, ainda que não tenha servido de nada. Apesar disso, Suenaga, um homem cheio de recursos, encontrou outro modo de garantir que seu serviço fosse reconhecido e lembrado: em 1293, em uma série de rolos que descreveram, com textos e imagens, suas corajosas façanhas. Os rolos, que entregou a uma capela xintoísta, não apenas celebravam seus atos ao repelir a invasão dos mongóis, mas também seu sucesso ao enfrentar a burocracia militar. Para os samurais, as invasões mongóis produziram algumas mudanças importantes e duradouras. Primeiro, os guerreiros haviam aprendido a lutar em formação, uma prática que acabaria se estendendo por todo o Japão. Segundo, a insatisfação dos samurais com o bakufu havia alcançado uma cota insuperável, e esse descontentamento era contagioso. Por volta do século XIV, o bakufu de Kamakura era um poder em decadência, e seus inimigos faziam alianças com as ordens dos senhores da guerra provinciais e com os membros da nobreza de Quioto, além de com a família imperial (com numerosas facções) e com as famílias de ex-imperadores. O Imperador Go-Daigo havia tentado se aproveitar da fragilidade do bakufu quando subiu ao trono, em 1318.Ao contrário da maioria dos imperadores recentes, que eram meras crianças quando subiram ao poder, aos 30 anos de idade Go-Daigo era um homem enérgico e ambicioso. Na qualidade de sábio erudito e autocrata persistente, queria governar, não apenas reinar. Isso, por si mesmo, era uma ameaça para o bakufu, já acostumado a governar o país.

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Go-Daigo também pretendia ficar no trono por toda a vida e não abdicar ao fim de alguns anos, como já era de costume, a pedido do Clã Hojo, cujos membros faziam de regentes. Pior ainda, o clã queria designar seu próprio filho como príncipe herdeiro e sucessor, o que era uma ruptura com a tradição recente, que alternava o trono entre dois ramos de adversários dentro da família imperial. O bakufu havia aprovado essa política para manter a paz, e a recusa flagrante de Go- Daigo pôs os chefes militares em guarda. Em 1331, quando souberam, graças a um dos conselheiros mais dignos de confiança do imperador, que Go-Daigo estava planejando depor o governo militar, este enviou tropas para a capital, Quioto. O Imperador Go-Daigo fugiu para um mosteiro no cume do Monte Kasagi, ao sul de Quioto e próximo à cidade de Nara, onde refletiu sobre sua situação: precisava desesperadamente recuperar seu trono, mas não tinha nem a sombra de um exército. Contava apenas com um grupo de monges-guerreiros que lhe protegiam em seu exílio na montanha e com um punhado de samurais em terras de propriedade da família imperial. Necessitava de um bom general, um adail de guerra em quem pudesse confiar e que tivesse a capacidade de reunir e dirigir um grande exército de samurais. A lenda conta que o imperador exilado estava meditando sobre esse problema, quando adormeceu e teve um sonho profético. Nele, Go-Daigo viu, sem qualquer dúvida, que ia recuperar o poder, e o que era melhor, o sonho lhe revelava como consegui-lo. Seu símbolo mais evidente era uma cadeira vazia (a do imperador) voltada para o sul sob os galhos exuberantes de uma árvore magnífica. Quando despertou, Go-Daigo interpretou seu sonho. Justapôs o caractere japonês que significa árvore com o que significa sul. Os dois caracteres, juntos, formavam a palavra kusunoki, que quer dizer «canforeira».

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O imperador perguntou se havia algum guerreiro com esse nome. O caso é que sim, havia, e logo convocaram aquele homem para o refúgio de Go-Daigo. Kusunoki Masashige era um guerreiro de Kawachi, uma província situada ao sul de Quioto, entre as cidades de Osaka e Nara. Tinha cerca de 35 anos e era filho de um provinciano desconhecido que, supostamente, havia participado de incursões contra propriedades vizinhas. Masashige havia estudado em um mosteiro budista, e depois seguiu os passos de seu pai. Conhecido por ser um líder carismático, mantinha uma fortaleza na região montanhosa perto do Monte Kongo, em Kawachi, e dispunha de um bando fiel de seguidores. Eram lutadores bem disciplinados e hábeis e funcionavam mais como uma guerrilha armada que como um grupo de soldados. É claro que Masashige não era vassalo de nenhum senhor feudal militar e não devia lealdade ao go- «Qµando enJh O homem valente op vemo militar. É possível que fosse administrador de algumas terras pertencentes à corte imperial. Em todo caso, era leal ao imperador e respondeu obediente ao chamado de Go-Daigo quando este lhe pediu que batalhasse contra o bakuJu. Mas Masashige lhe aconselhou que tivesse paciência. Disse que a guerra não podia ser vencida em uma só batalha. Aconselhou a Go-Daigo que não se desanimasse pelas notícias de possíveis derrotas. Animou-lhe: «Enquanto ouvir que Masashige ainda vive, confie que tua causa sagrada prevalecerá!».

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Com essa declaração, Masashige iniciou uma luta pelo poder que assolaria o Japão durante meio século, fazendo com que os senhores da guerra se enfrentassem e até mesmo um imperador enfrentasse o outro. Tal qual Masashige havia dito ao imperador, logo ocorreram alguns reveses. Pouco depois dos dois se reunirem, as tropas do bakuJu atacaram o Monte Kasagi. Go-Daigo fugiu com alguns nobres de altura e se dirigiu para a fortaleza de Masashige, perto do Monte Kongo. No caminho, os aristocratas foram capturados por soldados do bakufu. Go-Daigo foi encarcerado em Quioto e depois exilado em Oki, uma pequena ilha vulcânica a 80 quilômetros da costa ocidental de Honshu. Em vez do imperador que havia sido deposto, os chefes militares colocaram no trono um membro do outro ramo da família imperial, aderindo, assim, à política da sucessão alternante. Enquanto isso, Kusunoki Masashige havia organizado uma rebelião militar caracterizada por táticas muito inovadoras. Seu plano, como havia contado ao imperador, dependia do «artificio, não só da força militar». Pouco depois da captura de Go-Daigo, Masashige e um pequeno grupo de seguidores foram capturados por ~enta O perigo, 7ta pela prudência.» uma força superior do bakufu perto do Monte Kongo. Antes que tivesse de enfrentar uma luta suicida, decidiu fugir. Tal qual explicou aos seus: «Sempre que estejam em jogo a virtude e a honra, arriscarei minha vida. Apesar disso, «diz-se que quando enfrenta o perigo, o homem valente opta pela prudência e busca estratagemas.» Seguindo esta crença, Masachige mandou cavar um buraco profundo, que encheu com os cadáveres dos guerreiros de ambos os bandos que haviam morrido durante a luta.

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Em cima dos corpos, empilhou carvão vegetal e lenha. Após deixar um homem para trás, ele e várias centenas de samurais se disfarçaram de soldados do bakufu e, dividindo-se em grupos reduzidos, infiltraram-se nas linhas inimigas. Quando haviam se distanciado do perigo, o guerreiro que havia ficado atrasado acendeu a pira. Quando inspecionaram os vestígios, as tropas do baktifu convenceram-se de que Masashige e seus homens haviam se suicidado em massa. Aquela distração deu tempo para que o exército fantasma de Masashige organizasse uma guerra de guerrilhas. Organizados nos santuários de montanha que conhecia tão bem, em sua região natal ao sul de Quioto, seus homens perseguiam exércitos muito maiores de soldados do bakufu, em uma série concatenada de ataques rápidos. Em certa ocasião, incitou vários milhares de soldados a cruzar o Rio Iodo, e depois os atacou pelos flancos. Sua audaz resistência animou outros a reunir-se em volta da bandeira imperial levantada pelo filho do imperador exilado, o príncipe Morinaga. Também fez com que o bakufu colocasse um preço muito alto pelas cabeças de ambos: qualquer samurai que matasse um deles receberia uma grande parcela de terreno. Essa recompensa, oferecida em uma época em que o governo militar contava com poucos recursos, reflete o profundo interesse do bakufu em sufocar a revolta. Masashige enfrentou sua prova mais dura no início de 1333, quando três exércitos inimigos com um total de 100.000 soldados cercaram sua nova base. Chihaya estava situado no alto do Monte Kongo, a mais de 900 metros por cima das planícies.

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O astuto general, que não dispunha de mais de 2.000 guerreiros, utilizou a encosta inclinada do terreno para diminuir a velocidade do ataque inimigo. Montou barricadas nas ladeiras com árvores cortadas, cercas de arbustos suficientemente grossas para desviar as flechas inimigas e poços cheios de estacas de bambu afiadas. Enquanto o inimigo esforçavase para abrir caminho entre estes obstáculos, os defensores lançavam sobre eles tudo o que podiam encontrar, desde troncos a grandes tinas de madeira cheias de excrementos humanos. Após várias semanas lançando ataques sem sucesso encosta acima, as tropas governamentais estavam tão desmoralizadas que o bakufu enviou poetas da capital para que celebrassem com os soldados reuniões onde poesias eram lidas. As tropas leais a Masashige organizaram sua própria representação. Elaboraram duas dúzias de bonecos de tamanho humano, vestiram-nos com armaduras e lhes puseram armas. Certa noite. colocaram os bonecos atrás dos escudos, atrás das fortificações.Atrás deles ficaram, escondidos, experientes arqueiros.

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Ao amanhecer, os arqueiros escondidos lançaram um alarido de batalha sanguinário, como se estivessem dispostos a atacar. Acreditando que por fim seus adversários iam sair para campo aberto, os soldados do bakufu morderam o anzol e subiram para atacar pela encosta. Os defensores dispararam um bombardeio de flechas e refugiaram-se na fortaleza. Os sobreviventes renovaram o ataque. Justamente quando chegaram aos bonecos e descobriram que haviam sido enganados, depararam-se com alguns problemas. Uma autêntica cascata de pedras lançadas pelos defensores começou a cair ao seu redor, matando mais de 300 samurais do bakufu e ferindo gravemente mais de 500, conforme o registro tradicional. Por meio destas táticas, Masashige e seu destacamento assediado mantiveram o inimigo ocupado durante dez semanas. Durante aquele tempo, os leais à sua causa se animaram e organizaram revoltas contra o bakufu. E durante a primavera de 1333, os partidários de Masashige receberam mais boas notícias: o Imperador Go-Daigo havia escapado do exílio na ilha. Em meio à escuridão que antecede a aurora, fugiu em um barco de pesca para a província de Hoki, onde organizou uma corte temporária no Monte Funanoe, uma fortaleza natural.

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Temendo uma tentativa de devolver o poder a p’ Go-Daigo, o bakuJu enviou de Kamakura uma grande n tropa para o oeste, sob o comando de Ashikaga Takauji. Sé Takauji era um comandante que não conhecia o medo, i’ e o membro principal de uma das famílias mais im- d portantes do governo militar. Os Ashikaga podiam re- e montar sua linhagem até os Minamoto, que haviam  estabelecido o bakuju em Kamakura, e, além disso, esta- p vam relacionados com os regentes Hojo por meio de r, numerosos casamentos. Mas Takauji era astuto e ambicioso e, assim como a sua famÍ- r lia, incomodava-se com o domínio a …. do Clã Hojo, o qual considerava de ( uma classe social inferior à sua. Enquanto avançava para o oeste com suas tropas, Takauji tomou uma decisão importante: ia mudar de bando. Enviou uma mensagem secreta ao imperador Go-Daigo, pedindo-lhe permissão para atacar o destacamento do bakuJu em Quioto. Também reuniu vários rn.ilhares de desertores de todo o país, fa- zendo correr a voz de sua própria deserção em mensagens escritas em pequenos pedaços de papel e escondidos nos cabelos com coques de seus mensageiros. No dia 19 de junho de 1333, Takauji en- trou em Quioto à frente de um exército que tinha mais que o dobro do tamanho anterior, comprometido a defender o Imperador Go-Daigo. A tropa espalhou-se, provocando incêndios à medida que avançava pela cidade. Os edificios incinerados levantaram uma nuvem de fumaça sobre a cidade, tal como escreveu um cronista, «era como se toda a paisagem estivesse manchada de tinta». O destacamento do bakuJu foi dominado facilmente.

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A captura de Quioto levantou o cerco da fortaleza de Masashige, e provocou revoltas em grande escala por parte dos senhores descontentes e de seus samurais. Um destes insatisfeitos com o bakufu, um primo de Takauji chamado Nitta Yoshisada, rebelou-se contra seus senhores e conduziu um exército reunido às pressas para sua fortaleza em Kamakura. Enfrentando a derrota, o regente ateou fogo ao quartel militar e fugiu para um mosteiro acompanhado de mais de 200 parentes e fiéis. Em vez de se render, preferiram suicidar-se em massa. Ainda que o guerrilheiro Kusunoki Masashige tenha tido a honra de encabeçar a procissão real de volta a Quioto para devolver Go-Daigo ao trono, o homem que tinha de vigiar era Takauji. Sua mudança de bando devia-se menos à vontade de ver como o imperador recuperava seu trono que ao desejo de cumprir suas próprias ambições. Queria ser xógum, a autoridade militar suprema, e sentia que era seu direito como herdeiro do Clã Minamoto. Mas o imperador conferiu esse título a seu próprio filho, o Príncipe Morinaga, e Takauji teve de contentar-se com honras menos importantes. Takauji esperou pacientemente seu momento, enquanto o imperador repetia os erros do antigo bakufu na hora de recompensar os guerreiros que lhe haviam ajudado.

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O problema não era que não houvesse terras para recompensá-los, como havia ocorrido na época das invasões mongóis. Havia muitas terras, confiscadas pelos Hojo após sua derrota, que podiam ser distribuídas entre os samurais. Mas a maior parte foi repartida entre nobres que não haviam feito nada para devolver o poder a Go-Daigo. O imperador não captou a alienação a que se apossou dos estamentos militares, e se agarrou à à ilusão de que, como Masashige, haviam lutado por lealdade a ele, não para obter os despojos que uma vitória a tradicionalmente proporcionava. II À medida que aumentava o descontentamento entre os samurais, mais uma vez Takauji mudava de bando. a A cadeia de acontecimentos começou no final de 1334, e quando o irmão de Takauji deteve o Príncipe Morinaga, que havia conspirado contra os Ashikaga, aprisionando-o  em Kamakura. Go-Daigo não socorreu o filho, e no ano e seguinte o príncipe foi executado. Em agosto de 1335, uma parte das antigas tropas do bakufu reconquistou seu quartel de Kamakura. Agindo por conta própria, sem a aprovação do imperador, Takauji conduziu um exército para Kamakura e matou os intrusos. Desafiando as ordens de regressar a Quioto, autoproclamou-se xógum e começou a distribuir entre seus seguidores as terras confiscadas.

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No início do ano seguinte, derrotou as tropas imperiais enviadas para castigá-lo como «inimigo da corte», e vingou-se marchando contra Quioto, onde teve sucesso em sua tentativa de expulsar temporariamente o imperador. Três dias depois, as tropas sob o comando de Masashige e outros generais leais ao imperador fizeram Takauji fugir da capital. Mais decidido do que nunca, Takauji fugiu para o oeste, para a Ilha de Kyushu. Pelo caminho, foi conquistando os senhores da guerra descontentes,já que o imperador havia restaurado o governo civil, e samurais que estavam fartos de lutar sem obter recompensa. Em maio de 1336, regressou para o leste, no comando de um enorme exército. Estava pronto para enfrentar os partidários do imperador. O cenário do combate foi um lugar a cerca de 80 quilômetros ao sul de Quioto, em Hyogo, o lugar onde hoje fica Kobe. Takauji havia decidido avançar em dois exércitos: suas tropas iriam por mar e as de seu irmão, por terra. O comandante leal ao imperador, Nitta Yoshisada, precisava de até o último homem que pudesse recrutar, incluindo os soldados veteranos de Kusunoki Masashige. No entanto, quando o imperador ordenou a Mashasige que se unisse aos defensores em Hyogo, este colocou objeções. Entendeu que o exército de Takauji superaria com diferença o dos leais ao imperador. Queria evitar uma batalha decisiva e retirar-se na sua velha fortaleza do Monte Kongo para aumentar suas forças. Disse que, se fosse necessário, Takauji tomaria a capital, Quioto. Então Masashige poderia atacar suas linhas de fornecimento e acabar derrotando-lhe. Mas muitos cortesãos lhe aconselharam contra essa atitude, e Go-Daigo, superestimando o poderio das forças imperiais, rejeitou o plano. Obediente, Masashige conduziu seus homens para Hyogo.

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Segundo a lenda, Masashige permitiu que seu filho de dez anos, Masatsura, acompanhasse-o durante uma parte do caminho. Antes de enviá-lo de volta para casa, o guerreiro disse ao filho que estava certo de que ia morrer na batalha iminente. Masashige deu ao menino um livro sobre estratégia militar e a espada que o imperador lhe havia dado. Depois lhe disse: «Se ficares sabendo que morri na batalha, saberás que nosso país entrou definitivamente na era do governo dos xóguns.» Então, fez seu filho jurar que, nesse caso, se esconderia no Monte Kongo com os sobreviventes das forças leais ao imperador e lutaria por ele até o final. As crônicas do período afirmam que na batalha do Rio Minato, travada em 5 de julho de 1336, cerca de 35.000 homens dos Ashikaga enfrentaram mais ou menos a metade das forças imperiais. As tropas de Nitta Yoshisada enfrentaram a armada de Takauji, enquanto os homens de Masashige, dando as costas para o leito seco do rio, enfrentavam o exército de terra. No final da tarde,Yoshisada, pensando que estavam a ponto de atacá-lo pela retaguarda, afastou-se de repente do campo, deixando os soldados de Masashige desprotegidos. Atacado pela frente e por trás, Masashige lutou com desespero, mas sua esperança foi se reduzindo cada vez mais no meio do calor devastador.

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Quando começava a anoitecer, já havia perdido a maioria de seus homens e ele mesmo havia sido ferido muitas vezes. Em vez de arriscar-se e ser capturado, ele e seu irmão mais novo, Masasue, fugiram para uma fazenda vizinha. Enquanto se preparavam para cometer o ato final de um guerreiro samurai, Masashige perguntou a seu irmão se ele tinha um último desejo. «Queria renascer sete vezes nesse mundo para poder destruir os inimigos da corte», respondeu Masasue. Então, conforme diz uma fonte, estriparam-se, apunhalaram-se mutuamente e começaram a morrer sobre a mesma almofada. O estripamento ou seppuku (conhecido habitualmente como harakiri ou «corte de ventre») era a maneira habitual com que se suicidava um samurai. Os samurais adotaram este método, que trazia uma morte tremendamente dolorosa, porque se pensava que somente uma pessoa de grande valor poderia fazê-lo. Além disso, os japoneses pensavam que o abdome era o centro fisico e espiritual do corpo, ainda que as mulheres que se suicidavam ritualmente costumassem cortar o próprio pescoço. A vida e a morte de Masashige se encaixam na tradição japonesa do fracasso nobre e trágico, e os historiadores o homenagearam como um dos máximos heróis populares do país. Por outro lado, o vitorioso Takauji foi considerado o vilão da época. Mas não faltava compaixão a Takauji. Rezou para a deusa budista da misericórdia, Kannon, para que lhe perdoasse pelo papel que exerceu em todo aquele derramamento de sangue. Após a batalha do Rio Minato, assegurou-se de que a cabeça de Masashige fosse recuperada e enviada para sua família. Segundo ele, fez isso por respeito, observando que «sem dúvida sua viúva e seu filho vão querer vê-lo mais uma vez, mesmo que seja morto.

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Takauji regressou triunfal a Quioto e colocou no trono um membro de quinze anos do outro ramo da família imperial. Dois anos depois, o jovem imperador nomeou o guerreiro para o posto que sempre quis e que, de forma não oficial,já havia conseguido: o de xógum. Foi o primeiro dos quinze xóguns da família Ashikaga, uma nova dinastia militar que, como o bakufu deposto em Kamakura, governaria o país em nome do imperador. Apesar disso, em vez de manter a estabilidade, os Ashikaga governaram durante mais de 200 anos de desordem. Durante mais de meio século, a luta concentrou-se na extraordinária existência de dois imperadores. Go-Daigo, que se recusava a aceitar sua suposta substituição, havia fugido para Yoshino, um distrito montanhoso a cerca de 95 quilômetros ao sul de Quioto. Ali organizou sua própria corte imperial e sua linha sucessória. Agora o Japão tinha dois imperadores, um dos quais governava da corte do norte, em Quioto, e o outro da corte do sul, emYoshino. Os guerreiros e os senhores da guerra respaldavam a escolha do imperador não por ideologia ou por lealdade, mas simplesmente porque lhes trazia beneficios individuais e a suas famílias. Uma exceção notável foi o filho do herói mártir Kusunoko Masashige. Em 1347, Masatsura honrou o último desejo de seu pai tornando-se comandante do exército sulista do defunto herdeiro direto de Go-Daigo. Mas havia muitas famílias que tinham membros lutando em bandos opostos, algumas vezes deliberadamente, para garantir a participação no lado vencedor, fosse quem fosse. No caso da família Ashikaga, as tensões e os rancores internos ditavam as lealdades.

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O irmão de Takauji, Tadayoshi, passou para a causa do sul e o xógum ordenou que o matassem. Após a sua execução, o filho de Takauji também desertou. Em quatro ocasiões, os exércitos do sul tomaram a capital do norte, Quioto, mas foram incapazes de mantê-la. Por último, em 1392, o terceiro xógum Ashikaga conseguiu acabar com a corte do sul. O mais provável é que enganasse o imperador para que abdicasse, prometendo-lhe recuperar a antiga política da sucessão alternante, uma promessa que não tinha intenção de cumprir. Com o passar dos anos, os xóguns Ashikaga deixaram de se interessar tanto pelos assuntos militares e dedicaram-se mais a viver e a atuar como nobres da corte. Ashikaga Yoshimasa, que dirigiu o bakufu pouco mais de um século depois de seu antepassado Takauji, foi o máximo expoente dessa tendência. Enquanto os senhores provincianos lutavam no campo,Yoshimasa passava os dias presidindo esplêndidas cerimônias cortesãs. Frequentava a cerimônia do chá, de múltiplos matizes, onde alguns amigos com interesses estéticos parecidos com os seus se reuniam para tomar chá e admirar obras de arte mostradas pelo anfitrião. Sob seu patrocínio, floresceram artes como a delicada pintura com tinta e o drama sutil chamado Nô. Mas os dispendiosos impostos que tinham de pagar por tudo isso arruinaram os camponeses e incitaram revoltas entre os fazendeiros que morriam de fome.

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O governo chegou a um ponto morto, porque Yoshimasa permitiu que sua esposa, sua mãe e sua amante vetassem qualquer edito oficial que não fosse de seu agrado. O que acabou afundando o Japão no caos foi a decisão de Yoshimasa de retirar-se do posto depois de quase trinta anos. Designou seu irmão como sucessor. Mas então sua esposa deu à luz a um menino, e insistiu para que este fosse nomeado xógum. Em 1467, a disputa deu origem a uma intensa guerra civil. Durante dez anos, a guerra afetou a capital e seus arredores, destruindo boa parte da cidade; depois, propagou-se para as províncias. Em Quioto, as ruas estavam repletas de cadáveres, e eram recolhidas carretas inteiras de cabeças como troféus. Boa parte da população havia fugido. Um oficial do bakufu observou, após cinco meses de guerra: «A florida capital que pensávamos que ia durar para sempre tornou-se, para surpresa de todos, esconderijo de lobos e raposas.» Em um poema breve, lamentava-se: «Agora a cidade que conheceste transformou-se em um lugar ermo, do quallevantam voo as cotovias quando caem tuas lágrimas.» Assim começaram os cem anos de combate conhecidos como Sengoku Jidai: o Período dos Estados em Guerra. O Japão se fragmentou em uma multidão de reinos praticamente independentes. Cada um era governado por um dos poderosos barões provincianos conhecidos como daimios. Os daimios criavam suas próprias leis, construíam cidades fortificadas para abrigar seus samurais e lutavam com seus vizinhos. Embora muitos guerreiros defendessem as virtudes da lealdade e do dever, que exemplificaram tão dramaticamente Kusunoki Masashige, outros desafiavam seus senhores e mudavam de bando quando queriam, como o fez Takauji. No dia 9 de novembro de 1568, um senhor da guerra magro e com barba rala chamado Ode Nobunaga entrou na capital, Quioto, à frente de uma coluna de soldados a pé e samurais a cavalo. Ao seu lado cavalgava um membro da família Ashikaga. No que se tornou um padrão já familiar, este homem, Ashikaga Yoshiaki, queria suplantar seu primo e tornar-se o décimo quinto homem da família que chegava ao xogunato. Nobunaga havia combinado ajudá-lo, derrotando os senhores da guerra que protegiam seu primo. Mas Nobunaga não estava interessado no poder dos Ashikaga, que há tempo estava diminuindo. Simplesmente queria utilizar a legitimidade do cargo de xógum para alcançar suas próprias ambições, que se resumiam ao lema gravado em seu escudo: tenkajubu, «governar o império à força.

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Suporte de Katana e Wakisashi

Matéria retirada do livro “A terra dos Samurais e dos Xoguns”  Editora Time Life / Folio

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